Escravos

Não importa o tempo e o espaço. 
Não importa quantas vezes o vento passou.
O que realmente importa é como nos marcou
Com alegrias, tristezas e incertezas;
Tornamos-nos fortes para enfrentar a mais breve e cruel tempestade.
Tornamos-nos fracos para agüentar as perdas de verdade.

Não perdemos homens;
Perdemos almas de heróis.
Perdemos o milagre da vida nos navios negreiros
Perdemos em seus grilhões os pretos novos de nossa história.

Escuto o uivar dos tempos nas ruas do antigo Valongo.
Escuto gritos de espíritos em embarcações.
Fizemos orações.

Nessa guerra nosso sangue secou nas terras brasileiras.
Dormimos na rua.
Nossos corpos queimaram expostos a terra crua.
Sentimos os ares densos e salgados da morte.
Tivemos medo em deixar de viver.
Medo que tentamos esconder.

Ao vencer passamos a viver a cruel verdade.
Nossos dirigentes queimaram nossa história;
Porém nossa vitória também mudou a história de quem derrotamos. 
Passamos a viver na pobreza;
Porém agora podemos sonhar com clareza.

Nossa guerra não roubou nosso tempo.
Nossa guerra enriqueceu nossas almas.
Lutamos por algo que acreditamos.
Lutamos por algo que amamos.
Agora a liberdade é realidade.